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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Sobre gostosas, Renan e entregadores de pizza

Sentados numa mesa de bar, distraídos com a nova marca de cerveja que acabara de chegar à cidade, cujo comercial vale mais a pena assistir pela presença de garotas semi-nuas do que pelo próprio “suco de cevadis” (Mussum, essa foi pra você!), os amigos Ronaldo e Victor conversam sobre a situação atual do planeta Terra: a incessante guerra no Iraque, o ganhador do prêmio Nobel de Literatura, o dia em que Fidel cair, a edição do Big Brother finlandês.

Assuntos não menos importantes, de âmbito nacional, também entram na pauta de qualquer boteco de plantão: a economia favorável, o sucesso do biocombustível, o senador que comeu a gostosa, Santos Dumont se revirando no túmulo, a milionésima edição do Big Brother Brasil.

É nesse ínterim que passa por ali, mexendo com os hormônios da rapaziada, uma garota de fechar o comércio, a indústria, a prestação de serviço e o terceiro setor. Todos os presentes da raça masculina olham para a perfeição em forma de mulher, menos Ronaldo.

Victor, numa ação rápida, vira-se para o amigo e, preocupado, pergunta:
- Você não viu o que acabou de passar por ali? Uma garota linda! Maravilhosa! Sensacional! – diz Victor, na falta de mais adjetivos para aquela moça.
- É. – ele diz.
- Todo mundo olhou, menos você!
- Ah é? – pergunta Ronaldo.
- É. – ele diz. – Não entendi o porquê. Por acaso você... – Victor faz beicinho ao melhor estilo Casseta e Planeta.
- Não! Claro que não!
- Então por que você não olhou praquele monumento ambulante?
- Por causa do entregador de pizza. – Ronaldo responde, todo cheio de razão.
- Por causa de quem? – o único sentimento existente em Victor é a total falta de compreensão.
- Do entregador de pizza.
- Que entregador de pizza?

- Preste atenção... – diz Ronaldo.

Victor encolhe as sobrancelhas, como se fosse guardá-las num potinho.
- Em que consiste o ofício de um entregador de pizza? – pergunta Ronaldo, esboçando com os dedos um complicado esquema na mesa.
- Entregar pizzas, oras. – esclarece Victor.
- Correto. Mas não é só isso. O entregador de pizza é aquele cara que está com a pizza na mão, certo?
Victor concorda com a cabeça.

- Ele está sentindo o calor da pizza. Ele abre a caixa, olha e admira a forma da pizza. Linda pizza! Perfeita! Quem a fez sabia exatamente o que estava fazendo. O entregador sente o delicioso cheiro da pizza. Ele pode fazer de tudo, menos comer a pizza. Ele pode colocar a mão na pizza. Pode sentir seu cheiro, seu calor e suas belas formas. Mas a pizza é de outra pessoa, não do entregador. Ele quer possuir a pizza, mas não pode. Não é digno disso. É assim que eu me sinto quando passa uma morena daquelas. Por que tudo aquilo se ela não vai ser minha?

***
Após alguns minutos, depois de ser escorraçado do boteco como um cão sem dono, Ronaldo segue seu caminho filosofando, orgulhoso da teoria que acabara de inventar.Mas Ronaldo deveria saber que a sua teoria é completamente furada, se ele conhecesse o Renan. Esse sim, é um cara que, além de jogar a teoria dos outros na vala das teorias furadas, comeu a gostosa e ainda por cima nos presenteou com uma bela pizza tamanho gigante.

Um comentário:

Tatiana Lazz disse...

Ah, q legal... Agora sabemos qual é o gênero textual de cada post... Cabe acrescentar que muitos passam por aqui... Eu sempre vejo muito Veríssimo em você. Um humor sarcástico, mas refinado. Um dia ainda apareço na sua tarde de autógrafos... A do livro de contos e crônicas... HEhhe
Beijos, Finito